agosto 25, 2017

Decisões, decisões...


Dentro da mala, entre trapos e livros escolhidos, guardam-se ruelas, caminhos estreitos e portas fechadas a cadeado que supostamente abrem-se ao abrir a mente. É quase um mito vestido de alguma lenda e renda, mas acontece, oh se acontece. Sei-o para poder contá-lo, vi-o para poder jurá-lo, e dos sentidos, desses violentos hipnóticos como canções de embalar, não conto nem juro, não direi que sei nem vi, sigo códices que me chamam criança. Mas tenho a mala comigo e ao folhear os livros escolhidos, encontro páginas soltas com as poucas, pouquíssimas, confissões que posso partilhar. Tenho um molho delas na mão. Ainda não decidi se as atiro ao vento do cimo de um penhasco ou se as lerei à luz de velas ao ouvido ávido da luxúria.

agosto 22, 2017

Depois de percorrer as quatro arestas do quarteirão, não voltei


Depois de desaparecido começam as preocupações. As dos outros. As minhas resolvem-se em si mesmo. E a desaparição é, então, uma guloseima travestida de divindade, algum semideus sem forma nem pés nem mãos que rodeia a razão, o motivo, os embrulha em papel dourado e os lança da ponte ao rio ficando a gargalhar enquanto se afundam muito lentamente. Desaparecido tem a veleidade de um desabrochar tardio. E afinal, basta essa simplicidade e começam a acontecer razões e motivos muito mais estimulantes dos que se afundam nas águas. Renascer, afinal, tem método. Eu, que abomino metodologias.

agosto 21, 2017

Não há contabilidade na saudade


Quando se contabilizam os dias retira-se de algum lado o espírito que os envolve. Os dias são vasos sagrados onde se plantam sementes extraordinárias, palavras incompletas ou rajadas de vento. Mas ao se entregar aos dias, a esses vasos uterinos, os números e as fórmulas de catalogar, perdem-se definitivamente as passionatas relíquias que vivem e exaltam a cor e o sabor de que são formados os nós dos amores. E se os números insistem, os vasos secam por dentro, tornam-se quebradiços por fora e cada dia desfaz-se em medidas de tempo que apenas servem os infra-humanos, especialmente os que nunca se imaginaram. Quando o dia faz por existir, quando as horas e os minutos se transformam em verbo, acariciar não é o primeiro de nenhuma lista. É certamente momento de o declamar.

agosto 20, 2017

Na dúvida, certeza absoluta


Na dúvida, certeza absoluta. Porque a luz assim o determina, porque a cidade funciona e a energia é o sangue que perpetua e se consome sem apetite. Atiro-me de qualquer centésimo andar de algum centésimo edifício, a questão é mera retórica ou algum divertimento encadeado pelos faróis de mil automóveis enquanto outros mil esperam a sua vez. A espera existe como palco e a pressa como guião. E cada argumento possui-se a si mesmo, numa latitude impossível onde a manhã se retarda todas as noites. As luzes de qualquer centésima cidade ou milésima rua são a raiz, o caule e a folha. O fruto é a vampiresca necessidade de absorver energia como se fosse guloseima. E a flor, a janela do milionésimo edifício onde se olha, vê e decide o salto.

agosto 19, 2017

O sol será azul se eu quiser.


Ínfimo, eu me confesso perigoso, legado de algum trono que desconheço ou apenas motivo de geração incipiente, onde a hierarquia não passa de um favor ou no limite, uma ordem. A ganância da vontade, esse liquido pecado nulo do qual se constroem as lendas ou os semi-deuses, não passa de teimosia temporária, ou aparência excêntrica onde o olhar pára e se diverte. A lei nunca foi una, apenas o papel confirma, mas mil mentes e mais mil e outras mil, compreendem cada instante de maneira alheia, como se a vida fosse propriedade da alma e a alma existisse como decreto orgânico onde a vírgula e o parágrafo fossem fios de vento que não se agarram nem repetem. Dúvidas são as respostas dos alados quando nos sobrevoam, inchados da sua proeza e inertes no seu propósito. E nós, de olhar no céu, ou em céus diferentes, buscamos o que não se encontra. Prendemos o nosso pulso ao portão enferrujado e ali ficamos em pausa por muito que gritemos luta. Aplaudimos a maré apenas por ser maré. E choramos as lágrimas que guardamos em garrafas para os momentos de choro. Ínfimo, eu me confesso supremo, apenas por me lembrar destas mínimas incertezas arrumadas a um canto.

agosto 17, 2017

Todos os tiros revelarão carícias


Todo o armistício traça-te caminhos na pele onde os meus dedos viajam sem permissão. A trégua ou o beligerante cessar fogo, encontram veredas e caminhos desconhecidos ao longo de muros cobertos de pinturas, os esconderijos que o rio conhece e não esconde, o quarto sem paredes e«nem lençóis onde lutamos o nosso amor como se paixão fosse um carregador repleto de projecteis, mais uma na câmara, para nos atingirmos simultaneamente em todas as partes do corpo onde a ferida seja prazer. Conheço lugares onde o amor conhece minutos que não sabia existir. E nesses lugares, cada disparo molda uma ressurreição que o corpo compreende.

novembro 23, 2016

Creio serem horas


Ao deambular pelos confins e outros lugares um pouco mais perto, descobri a essência, uma claridade ténue varrida por uma brisa gelada, um palco, um altar e uma cadeira, de acordo com as necessidades ou os temores que se guardem no bolso. As águas parecem pairar enquanto uma ave sem nome faz de barco ou de naufrago. O relógio ganhou tédio na medida exacta dos ponteiros que faltam. E a carícia regressou por momentos, ou instantes, só ela sabe. No terceiro andar, a noite espera. E esperará sempre, pelo menos enquanto os passos subirem os degraus alcatifados da íngreme persistência.